lembro-me de, no aeroporto, ter o poder de dar ou nao prioridade a certos casos no check in, lembro-me do olhar do meu colega e de ter feito merda. lembro-me que depois, veio ter comigo e disse "podia tê-lo dito mas achei melhor saberes por experiência" e nunca mais ter repetido a merda.

lembro-me da minha primeira apresentação; casa cheia, eu nervosa a suar, alguém vir no meio da apresentação para se queixar do serviço, o publico todo a ouvir e ela a continuar. lembro-me de ter pensado "isto não está a acontecer" enquanto mentalmente pegava na cabeça da senhora e batia com ela na parede.

Lembro-me do meu grupo de terceira idade, daquelas velhotas de 90 anos que fizeram birras porque não as deixei ir ao super safari. de sair de casa e fazer 60 quilómetros para me certificar que aguentaram o passeio que sugeri e apanha-las a beber porto e a dançar.

lembro-me do orgulho ao ter enchido um autocarro de franceses, até ali os filhos bastardos da empresa, de encher autocarros, encher sítios, conseguir fazer dos hospedes um único grupo, organizar tudo e manda-los a conhecer Portugal. 

lembro-me de cada prémio que ganhei, dos colegas com quem ia ao hotel onde nem sequer tínhamos reunião mas que visitávamos para depois lá almoçar. lembro-me tão bem de certos casais, das histórias de vida, da senhora que queria uma pausa de carregar os seu filho paraplégico, do marido que perdeu a mulher mas continua a vir cá com fotos dela, de tanta história que tive o beneficio de ouvir. 
Lembro-me de me dizerem que eu era boa e de não acreditar. lembro-me de começar a ver que afinal sim. agora sei que sim.


A semana passada, tive um casal de idosos, mesmo idosos. noventa e tal de idosos, no hotel. demoravam meia hora para darem dois passos, iam para o restaurante de maos dadas logo que aquilo abria e eu sempre torcia para que chegassem antes de fechar (chegavam). perguntavam me o horário dos autocarros e eu perguntava se eles queriam mesmo ir de transporte publico. assustava-me que aquelas maravilhosas pessoas andassem ali, no meio da jagunçada - os outros, os outros todos. a dada altura senti que os importunava. de tanto querer tomar conta deles, sentia que se afastavam cada vez mais e - surpresa - quase corriam para o outro lado quando me viam.

na hora de ir embora, fiz a pergunta que sempre faço; gostaram da estadia?

resposta deles; "aquela merda de hotel é um sitio muito morto, nao é? pouca animaçao, poucas festas".

fazedor de cestos e toda a dor dentro de nós

fui convidada para seguir uns hospedes numa excursão. não sei se foi para me compensarem porque trabalho 15 horas por dia ou se foi castigo por não trabalhar 18. acordei demasiado cedo, apanhei um transfer e fui (oh the joy) de jeep por terras pelos lados de vila real de santo António. falo Francês, inglês e alemão. meteram-me com holandeses, imaginem o silencio. o objetivo da excursão era conhecer o algarve interior, cheio de laranjas, figos e cestos de palha. falando em cestos de palha, paramos numa casinha e entramos numa garagem onde um senhor de idade, muito bem vestido, fazia uns cestos. os turistas, maravilhados, compraram uma data deles. nunca soube porque se diz "data deles" para explicar q foram muitos mas cada vez menos entendo destas coisas, compraram os cestos, os potes de mel com alecrim e foram para o jeep que fez manobras perigosas que exaltaram os pobres corações dos senhores que pagaram para isso.

vamos voltar ao senhor dos cestos, uns oitenta anos, impecavelmente vestido, cão assustado ao lado, a fazer cestos. linda imagem, até a tenho aqui no telemóvel, eu e os outros que adoraram a figura de quem se agarra a tradições.

um dos condutores do jeep, impecável, tornou a viagem de todos numa verdadeira festa, confessou-me que o senhor é viúvo há uns dois anos. o filho emigrou e o outro só quer vender a casita para poder, sei lá, gastar tudo em putas e vinho verde. o senhor vive sozinho e o cão (a parte mais importante para mim) tem pavor dos turistas porque os putos, por vezes, são agressivos. eu não sei se é verdade mas pelo sim, pelo não, fiz imensas festas. um dia disseram me para fazer festas a todos os caes que encontrasse porque nunca saberia mas poderia ser a melhor parte do dia. não te disperses, rapariga, a ultima vez que isso aconteceu, dispersares te, foi no meio da apresentação e deste tempo de alguém se levantar e gritar que isto era uma grande merda. nao te disperses.

então o senhor dos cestos, já com problemas de coração, é avisado pelos condutores dos jeeps que, daqui xixs tempo passarão por aí, o tempo do senhor se levantar, tomar banho, vestir o melhor fato e fazer a porra dos cestos. uma vez que nos vamos embora, acho que o senhor dá um pontapé no cão, volta a meter o pijama, enfia se na cama e volta à sua depressão.

fui para o almoço (onde os próprios condutores dos jeeps nos serviram vinho e frango à descrição) pensando no fazedor de cestos que, provavelmente, a esta hora, deveria esperar a morte e a mandar calar o cão que tinha saudades da dona.

cada vez mais fiquei a pensar que a realidade não é a que se apresenta aos olhos que vem conhecer, pela primeira vez, a paisagem. o instagram da vida real é quase tão triste como a virtual mas paga se para ver o bonito, a cultura e o típico. paga-se um cesto feito à pressa, tira-se uma foto de um velhotes a fazer o cesto e baza-se para o vinho à descrição. by the way, bela merda de vinho, fiquei com dor de cabeça. o fazedor de cestos com dor de coração. cada um a sua dor, não para turista ver, claro.


15 horas de trabalho e meia garrafa de mula velha porque, vá lá, safei me

a auto estima deveria ser como uma vacina, apanhas quando pequeno ou passas a vida toda fodido. fodida, nao vá a ferro rodrigues apanhar me.
a auto estima, e aqui longe de mim ser um gustavo santos de saias (ou calças, calma, liberdade de se vestir o que se quiser) é algo que ou te incutem quando pequeno e te achas capaz de tudo ou cresces sentindo que precisas sempre de mostrar o quanto vales e, pior, quando acreditam em ti, tens o pavor enorme de desiludir quem te apoia. há altura em que penso ter algo a ver com tudo o que acontece de mau no mundo, mesmo a eleiçao do trump. conheço quem acha que nao deve fazer pisca ao domingo porque a mãe sempre lhe disse que ele deveria fazer o que quisesse e quem nao respeitasse o seu fim de semana nao merecia a sua atençao.

se os pais soubessem o quanto o amor e a confiança em pequenos pode modificar vidas, talvez nao criticassem tanto os seus petizes. nao custa nada, é como a vacina; uma pequena atitude que muda uma vida. és capaz, vai tudo correr bem e se nao correr, estamos aqui. no fundo é o meu screen saver; ever tried, ever failed, no matter. try again, fail again.



fail better.

coisas que aprendi com os ingleses

depois de quatro meses horríveis a aturar ingleses, fui promovida. fuck off, bye bye felicia e outras despedidas pouco românticas. nem todos são maus, dos que conheci, lembro de dois ou três que eram amorosos, decentes, humanos, vá.

a primeira coisa que me chocou foi a facilidade com que exclamam qualidades. everything is amazing and you're fab, the best, oh god I love you and this is all so great. só depois de um tempo percebi que isso traduzido em miúdos equivale ao nosso "meh".

se pisares um inglês e pedires desculpa, 90% das vezes ele irá retorquir um "well, sorry doesn't seems to be enough", já é genético, a cria já saí da barriga da mãe a negociar uma compensação. e a mãe aceita pagar porque depois irá pedir outra ao hospital. a lei da sobrevivência na Inglaterra rege-se por pedir. pedir compensação, pedir subsídios, pedir apoios, pedir pedir pedir. nunca irei esquecer quando me pediram o dinheiro do zoomarine de volta porque "nao gostámos". esta semana aturei durante 3 horas uma hospede que se queixava da comida do hotel. foi capaz de me detalhar cada pedaço de pão, cada fatia de queijo, cada ingrediente do buffet para depois me perguntar como pode ela conseguir o dinheiro de volta baseado nessa conversa. ia respondendo "eu pagar-lhe-ia só para que se cale. está safa"

a educação é hipócrita mas sabe bem. começam sempre com um "hi, are you ok?" que refresca do nosso "bom dia se deus quiser" e agradecem imenso, conseguem uma voz doce para pedir um favor e despedem-se com um "you're an angel, god bless you" ou "you're a star" deixando-nos com a mesma sensação de quando nos dizem que somos únicas. nunca somos. you are not an angel. sorry. god don't bless you

como escrevi, houve famílias extraordinárias. ainda ontem abracei um casal que veio com os filhos e com quem passei horas a rir e a ouvir histórias. o abraço aconteceu antes de receber uma chamada de outros hospedes que me tinham pedido um voo mais cedo (pq mimimi) a gritarem  porque cancelei o voo oficial. a verdade é que se arrependeram de terem pedido um voo antecipado, afinal até se está bem aqui, vamos ficar mas nao vamos informar ninguém e tunga. chegaram ao check in de ontem e no sir, no flight for you . acho que ainda estao no aeroporto à espera de voo. hihihi

posto isto vou agora aturar outros. só mais uma semana. depois vou fazer o que sempre quis fazer e o que batalhei e aturei até agora para tal. voilá.






Sonhei que uma senhora me tinha atropelado um pé. nem sequer me doeu mas quis ir atrás dela e avisar que ela tinha de ter cuidado. a senhora abriu a porta do carro, disse lhe "atropelou-me um pé, tem de ter cuidado" e ela fugiu, bateu noutros carros a fugir e desapareceu. no meu pensamento, ouvi a frase da minha amiga holandesa que tem um aspecto frágil mas uma sinceridade cortante "as pessoas parecem ter medo da verdade quando é a unica coisa que as mantêm dignas".


A minha mãe costuma dizer-me que as pessoas sao como as plantas, se as mudarmos muitas vezes de vaso, elas acabam por morrer, uma tentativa de explicar a sua amargura e alertar-me para para de mudar de casa. comprei uma planta há anos por causa do cheiro das flores que ela emana nos fins de agosto. lembra-me as flores que costumava roubar no regresso da escola para oferecer a minha mãe. ela só cresce e floresce se estiver perto de outras plantas. enrola-se meigamente nelas e cresce, brilhante e viscosa. sabe viver.
estou feliz como nunca fui, nunca pensei ser tão ambiciosa, tão trabalhadora e, especialmente, tão teimosa. os meus objetivos estão além dos objetivos que me pedem. não leio criticas nem elogios e se o meu chefes os lê, tento não dar atenção. sou pontual, dedicada e sincera. mesmo que um hospede me acorde às quatro da manhã por uma urgência qualquer, eu estou às nove com o outro hospede com quem combinei. tenho sido uma surpresa para mim própria e nem sequer as desilusão que o "amor puro para sempre" me abrandou. antes pelo contrário. no outro dia ouvi uma música numa das centenas de quilómetros que faço por dia, que por acaso me lembrava de ti e ri, acho que sarcasticamente mas ri. a minha mãe diz que se uma planta mudar muitas vezes de vaso acaba por morrer e eu acho que se deixar de querer crescer, pode efetivamente morrer.

não sei se é por querer recuperar o tempo perdido, se é porque gosto e - eu sei - sou boa no que faço, tão boa que sou considerada a melhor, mas sei que me desafio, não paro, não descanso, um carro em aquaplaning sem controlo de quando parar. e não quero saber.