estou a escrever no espaço outrora ocupado pela cama. agora só a sua prova é a cor do pavimento, mais claro. a minha mãe mãe costuma dizer que as pessoas são como as plantas, se mudarem muitas vezes de lugar, acabam por enfraquecer. vou mudar - outra vez - de casa e, mais uma vez, não me aborrece nem sequer deixará saudade. é assim com a maior parte dos sítios onde vivi, passo por eles e nem sequer abrando. há um local, esse sim, sou incapaz de lá voltar de tanta dor de saudade que me provoca. a minha mãe diz que quem muda muitas vezes de poiso acaba por enfraquecer e no outro dia perguntaram-me se qual o país com o qual eu me identificava, se o da minha mãe, se o de onde nasci ou se o de onde estou, não soube responder, acho sempre que consoante a ocasião, fico fria como os alemães, quente como os portugueses ou viro criança como quando vivia lá nas neves e reinados. devo ter sofrido e rido como nas outras, devo ter bebido e dançado, chorado e desiludido, sei lá, é um sitio onde vivi como os outros. acho que tem a ver com inicios, a casa que me dói ver foi a casa onde aprendi a sofrer horrores mas também a que me ensinou a crescer.  vou mudar de casa e embora não me irá provocar saudade, há sempre uma frase, já nem sei se tirada do lillo and stich ou de um filme de guerra, que ecoa na minha cabeça "não se deixa ninguém para trás" e vou deixar o meu cão, enterrado algures entre uma videira e a raiz de uma alfarrobeira e isso sim, dói horrores. vou deixar para trás o meu cão. vou deixar para trás o meu cão. não se deixa ninguém para trás.
gajas will be bitches e eu nao sou exceção. leio a antiga amiga a sofrer horrores por um gajo no fb e print screen para a mana que também a conhece. risinho histérico, gozo enorme pelas frases profundas e sentidas, a saudade de um amor perdido, o olhar no telemóvel à espera que ele reconheça o típico "ninguém te ama como eu te amo" e essas coisas todas que quem não sente não é amiga da gente. releio as frases de sofrimento, todo aquele aparato, o desespero e a solidão e o risinho fica cada vez mais histérico, sou ridícula ou então é como quando se abranda na estrada para ver um acidente, o lado mórbido de saber o que pode acontecer quando se baixa a guarda, acompanhado de um "ainda bem que nao sou eu" e continuar aproveitando um dia de cada vez.

life sucks and then you die



linda vista, nao é?

Ontem pela meia noite recebi uma chamada do "line24" a avisar que uma das minha hospedes estava a gritar por socorro, que era doente e que o genro tinha ido embora levando carro, dinheiro e cartões. ensinaram a nao me meter em problemas familiares a nao ser que uma criança esteja envolvida mas, mesmo assim, liguei para a senhora que me disse estar tudo bem, trancada em casa, mas que gostaria de falar comigo amanha. in private.

juro que cheguei lá com medo. suei das mãos (nao sou de suar das maos). sitio isolado, podiam perfeitamente tirar me os rins e deixarem me no meio da estrada. o quadro era o seguinte; a filha da senhora morreu há dois meses, a senhora tem ataques de epilepsia e cancro, foi de férias com o genro porque o marido tinha ido demasiado abaixo com a morte da filha e o genro (toxicodependente em recuperaçao) era a unica pessoa com quem estando, estaria um pouco mais com a filha. pagaram mais de 5.000 euros para uma semana de paz que acabou logo na terça feira quando, num ataque de furia, ele deixou-a sem dinheiro nem carro, desaparecendo e obrigando-a a fazer dois lutos sozinha. A conversa "in private" era somente falar sobre a filha. sobre ela. falar. só isso; falar.

a vista já nao parece tao linda pois nao?


oh lord

quando decidi entrar no mundo dos adultos e aceitar uma função da qual não tinha experiência nenhuma, não me avisaram de que os ingleses iam de férias já a pensar no dinheiro que iriam receber de indemnizações pedidas depois por qualquer coisa que corresse mal. aliás, caiu me a ficha quando uma amiga, que já trabalhou no Hilton, me informou que há quem peça cartões de credito já a pensar na queixa que irá fazer nas férias e pagar com as compensações. e está tudo bem, oficialmente estou lá para "criar as melhores férias para os clientes" mas, na prática, estou lá para que existam menos motivos de queixas depois.

e até agora tudo corre bem, os problemas são resolvidos na altura, os algarvios têm um pouco de dificuldade em entregar a casa a hospedes sem irem lá de vez em quando "regarem as flores" ou "cortarem a relva" mas com diálogo tudo corre bem.
O problema é quando apanhas um cardume de tubarões que, nitidamente só fazem isso na vida; queixas. e a piscina não estava cristal clear mas dava para uns mergulhos mas "irei processar-te a titulo pessoal e á empresa que representas se algum de nós ficar doente depois de mergulhar" e a maquina de lavar roupa funciona mas "irei processar por cada peça de roupa delicada que encolher porque não têm programa para esse tipo de roupa" e o guarda sol que caiu e "irei processar se cair na cabeça de uma das crianças" e ali ficas estática, a ouvir ameaças, quase a sentir o dedo no teu nariz (que por acaso é grande) e insultos, e a meterem palavras na tua boca, aquele cardume e tu, sozinhos, e continuas a sorrir, a explicar que tudo se irá resolver, que se quiserem processar, que o façam, que de qualquer maneira já tirei fotos de tudo e fazem muito bem em processar, e by the way o meu nome completo é este e se quiserem processar-me a titulo individual estou ao dispor para quaisquer dados que necessitem para formalizar seja o que for, e insultam, e topas que arranjam merdas, e mais arranjam merdas mais te lembras que tens um plafond para "compensações" e não verão um tostão, e mandam-te para o caralho quando sentem que não levam nada, e continuas a sorrir e, numa tentativa desesperada pedem te uns bilhetes for free para o zoomarine e aí, a sorrir, dizes que não poderá ser porque tens de ir para o caralho. a ultima vez que respondi torto foi há dois anos, um casal que ficou meia hora a fazer perguntas e a queixar se das respostas. a dada altura pergunta onde é o autocarro, "vira à esquerda, meio quilometro depois" "entao e até lá? como vamos?" e eu, saturada, respondi "entao a sua mulher vai ao meu colo e você às minhas cavalitas", claro que processo disciplinar, sorte os meus chefes nem saberem quem eu era e aquilo passou em branco mas mesmo assim arrependi me assim como me arrependi me hoje de dizer que "tenho de ir para o caralho".  claro que no carro choras, não de mágoa mas de raiva, não fosse a palmadinha nas costas do chefe a dizer "you're doing a good job" pensarias duas vezes em voltar para o hotel onde foste a uma formação hoje à tarde e constataste que tudo se mantêm na mesma but you. e fazes um report, com fotos, argumentos e provas de que aquela família não tem razão de queixa. mandas para quem de direito e ao fechares o computador pensas que o mundo dos adultos é dificil mas muito mais desafiante.

para memória futura

o senhor, cinquentas e muitos cheios de muito bom aspeto e a cheirar bem, chega perto de mim perguntando se a casa onde iria ficar era bonita. respondo o que respondo sempre, que é a mais bonita. parece nervoso, olha para trás e pergunto se está tudo bem. "sou um policia escocês reformado. separei-me da minha mulher há 25 anos e apaixonei-me pela minha amiga de infância que era casada com o meu melhor amigo. ele morreu há dois anos e convidei-a para estas férias a ver se me começa a ver como mais do que um amigo. quero que tudo seja perfeito".  Ela chega, parece um acidente de viação, cabelo com várias cores deslavadas mais uma raiz branca, não devem ter visto uma escova desde que trump foi eleito, ar amargo e roupa que nem os vegan dos anos setenta se lembrariam de vestir. um choque quando posto ao lado dele, tão elegante, camisa tão lisa que nem parece ter saído de uma viagem de avião. olha para ela com orgulho e brilho, olha para ele com desdém. boa sorte, senhor policia.

para memória futura

Ela tem 70 anos. o primeiro marido trocou-a por uma loura e o segundo morreu, não que ela estivesse muito triste com isso. Ele tem 75, separou-se da mulher que, e por palavras dele, "is shit. absolutely shit"
Moraram na mesma rua durante anos. ele no numero 90 e ela no 75.

Um dia, estava ela a passear o neto quando passou pela casa dele e encontrou-o a regar o jardim. palavra puxa palavra e ela disse que tinha um pequeno café com uma loja de joias numa rua qualquer, coincidência ou não, era a rua onde a filha dele morava. "um dia, antes de visitar a minha filha, passo por aí".
E uma semana depois ligou a dizer que passaria por aí, iria fazer de baby sitter para os netos, ela, nervosa, ligou para a amiga para que lá estivesse, dar apoio moral, relembro; 70 anos.
E ele chegou, e ela ofereceu-lhe café, conversaram, almoçaram (com a amiga, claro) e quando ela perguntou se ele não tinha que ir ter com os netos, ele disse "não, só às 17 horas, temos tempo" e às 17 horas, contra vontade dele, lá saiu de perto dela e andou a vaguear até ser de noite cerrada; a filha não morava nem sequer perto dali e se ele voltasse agora para casa, ela toparia pelo carro estacionado que era tudo uma mentira. bonita, é certo mas mentira.

estão juntos há cinco anos; eles e um gato de 20 anos que todos os dias promete morrer mas que continua a caçar ratos. compraram uma casa no meio das duas onde viviam. parecem crianças. parecem felizes.

mais um dia, menos um dia

chego do jantar e recebo um mail da sede da empresa a informar que há uma queixa formal sobre uma das casas em que sou responsável. mando mensagem ao hospede a perguntar o que se passa e ela, passado meia hora, responde que a casa está cheia de bolor e tem de dormir com o filho de 4 meses na sala. no dia seguinte vou lá para ver pelos meus próprios olhos antes de lhe atribuir outra vila. bolor? nada. mulher com a paranoia obsessiva compulsiva? uma. começa a falar do bolor debaixo da pintura e de que cada vez que abre a janela consegue sentir o pó dançar pelo quarto. pelo canto do olho sinto o marido embaraçado enquanto todos ouvimos a senhora a ter um orgasmo enquanto fala do pó, das alergias e bactérias e a mostrar fotos de como teve de meter o filho na bancada da cozinha para ele dormir a salvo daqueles monstros todos
ligo para a senhoria que, de uma forma bem histérica, se mostra disponível para lá ir trocar o berço e almofadas. combinamos uma hora e encontramos-nos a porta da vila. a senhoria é baixinha e mal educada, daquelas pessoas que, de tao confiante que só ela sabe português, fala mal dos inquilinos que pagaram balúrdios para lá estarem a centimetros dos mesmos. eu, no meio a apaziguar tudo não pelo bem estar de todos mas porque fui contratada para que não existissem queixas pós-férias, parece que existe um modo de vida que funciona assim mesmo, queixa a queixa enche o inglês o papo. a vila de luxo, piscina e vista de cortar o folego, nao tem nada a apontar mas o cliente tem sempre razao mesmo que nao tenha.

e a senhoria grita que não quer almofadas no chão, e a hospede pergunta-me o que ela está a gritar, e eu a dizer que ela só está aborrecida porque a casa não está a 100% para eles, e a senhoria continua qual bruxa má da branca de neve a ameaçar que nao vai aguentar isto durante 14 dias, a hospede a pedir me para fazer a tradução e eu a explicar que ela só está aborrecida porque eles não estão satisfeitos e ela só queria que eles gostassem da vila. a senhoria a gritar, a hospede a pedir me explicações e eu a mudar a realidade para que exista paz.

bolores à parte, adoro o meu trabalho.