A minha mãe costuma dizer-me que as pessoas sao como as plantas, se as mudarmos muitas vezes de vaso, elas acabam por morrer, uma tentativa de explicar a sua amargura e alertar-me para para de mudar de casa. comprei uma planta há anos por causa do cheiro das flores que ela emana nos fins de agosto. lembra-me as flores que costumava roubar no regresso da escola para oferecer a minha mãe. ela só cresce e floresce se estiver perto de outras plantas. enrola-se meigamente nelas e cresce, brilhante e viscosa. sabe viver.
estou feliz como nunca fui, nunca pensei ser tão ambiciosa, tão trabalhadora e, especialmente, tão teimosa. os meus objetivos estão além dos objetivos que me pedem. não leio criticas nem elogios e se o meu chefes os lê, tento não dar atenção. sou pontual, dedicada e sincera. mesmo que um hospede me acorde às quatro da manhã por uma urgência qualquer, eu estou às nove com o outro hospede com quem combinei. tenho sido uma surpresa para mim própria e nem sequer as desilusão que o "amor puro para sempre" me abrandou. antes pelo contrário. no outro dia ouvi uma música numa das centenas de quilómetros que faço por dia, que por acaso me lembrava de ti e ri, acho que sarcasticamente mas ri. a minha mãe diz que se uma planta mudar muitas vezes de vaso acaba por morrer e eu acho que se deixar de querer crescer, pode efetivamente morrer.

não sei se é por querer recuperar o tempo perdido, se é porque gosto e - eu sei - sou boa no que faço, tão boa que sou considerada a melhor, mas sei que me desafio, não paro, não descanso, um carro em aquaplaning sem controlo de quando parar. e não quero saber.
esta semana tive


  1. um hospede que queria reembolso porque nao gostou do zoomarine
  2. um hospede que, num sábado antes de check out foi "assaltado" mesmo sem sinais de arrombamento
  3. um hospede que queria reclamar com quem reservou o "interacçao com golfinhos" porque nao gostou
  4. um hospede que queria fazer queixa porque colchão e almofadas demasiadas duras
  5. outro que reclamou porque gato perto da piscina
  6. outro porque curto circuito quando acendia a coisa de aquecer agua mas nao queria mudar de chaleira
  7. casal de 8 que se embebedaram num passeio de parco e sentiram se enganados quando lhe pediram a conta porque acharam que era tudo de borla
neste leque de boa disposição, só dois casais (irmãos com repsectivos conjugues) insistiram em esperar por mim para me mostrarem o quanto adoraram o que lhes sugeri. quase que valeu pelo resto. quase. mostraram fotos e estavam a sorrir. pedi para tirar foto. 


aberdeen

A semana passada tive um grupo vindo de aberdeen. conheces? eu também não conhecia. sei que ficaram alojados num hotel de cinco estrelas mas que iriam, no dia seguinte, parar a manchester e só depois, e após uma viagem de 8 horas num autocarro, chegariam ao seu destino; aberdeen. a diretora do aeroporto precisava de pessoas fortes para os avisar da mudança mas só havia eu e um colega. avisou-nos que era gente dura, sem papas na língua e perguntou-nos se tínhamos a certeza que queríamos dar a cara e informar que iriam de autocarro durante oito horas em vez de avião de uma hora. john (meu querido john) disse que sim e eu fui atrás. burra.
dispenso-te os pormenores (porque sei que sou chata com o meu trabalho) mas, resumindo, precisei de dois dias para recuperar tal foi a porrada que levei. sei que estive bem porque no relatório gabaram-me a calma e coragem mas, e eles não sabem, dormi catorze horas depois, em posição fetal e tive o instinto de proteger a cabeça cada vez que vinham falar comigo.

hoje conheci um casal na casa dos sessenta. amorosos. de aberdeen. o meu primeiro instinto foi fugir dali para fora, tal e qual os malucos todos nus a agitar os braços, a única diferença é que ia vestida. contive o instinto e fiz de conta que não era nada comigo, mesmo quando me perguntaram se eu tinha algo a ver com a polémica do voo que afinal foi de autocarro. foi quase tão mau quanto quando me perguntavam se ficavam bem de croks.

estavam ambos na casa dos sessenta e, lá está, há quem tenha o poder de fazer doces, eu tenho o poder de saber quando vão no segundo casamento e eles iam no segundo casamento. eram felizes, amigos, riam e tinham entre eles uma cumplicidade invejável. depois de me contarem como se conhecerem "he was my boss e i felt in love as soon as i laid my eyes on him" e "first time i saw her i knew she was the one" falaram do karma, ele nao acreditava mas ela sim. ele sacudiu os ombros e ela olhou para mim tentando hipnotizar-me a fazer acreditar. contei lhe da tragédia do voo da semana anterior, e enquanto ele gozava comigo dizendo que iria dar o meu telefone a quem tivesse de fazer a viagem de bus, ela assegurou me que fiz o melhor que pude com o que tinha e que seria recompensada. sorri e ao olhar para os dois, com private jokes e sorrisos cúmplices, achei que já tinha sido recompensada por tê-los conhecido. puta que pariu aberdeen. viva eles.
ligaram me. uma família de dez fula da vida a querer que lá fosse. já nao sou nova nessas coisas e liguei primeiro ao proprietário da casa a perguntar se sabia do que se tratava, parece que um dos filhos era um matulão de 19 anos em cadeira de rodas e tinham-lhes dito que a casa era "wheelchair friendly". só a expressão mostra a educação hipócrita dos ingleses, "friendly", torna tudo na banda sonora "we are the world". cheguei lá, a mãe a chorar; tinham lhe vendido umas férias com facilidades para cadeira de rodas e encontraram banheiras, portas apertadas onde nao conseguem meter a cadeira de rodas e gravilha na entrada. ela chorava, tentava explicar-me o quanto tem sido cansativo carregar 90 quilos de 19 anos para o duche. queria férias. precisava de férias. nao se importava de gastar, afinal o problema do filho era devido a um erro médico e eles tinham o suficiente como compensação (ahhhh as compensações) para lhe dar uma boa vida. 
e eu comecei a ligar a rent a car. sabias que nao se alugam carros com elevador para cadeira de rodas? e eu liguei para empresas especificas. sabias que nao há ninguém tem carrinhas com elevador para cadeira de rodas? e liguei para transfers. nada. e liguei para taxis. nada. passei a tarde com aquela família a tentar arranjar soluções e nada. nada

a coisa não correu assim tao mau, peguei no pai, levei-o a uma praia de fácil acesso com cadeira de rodas, mostrei lhe vários restaurantes perto da casa onde não precisam de taxi ou transfer. reservei-lhes passeios em que os iam buscar mesmo à porta e sugeri vinho para os dias em que a vida fosse ironicamente pesada. voltou para casa esperançado e ela sorriu e agradeceu. sei que o proprietário ia lá hoje fazer algumas alterações que lhes facilitassem a vida. deitei-me com a sensação de que há um mundo lá fora que ninguém imagina. pior do que aquele que vi nessa tarde. 


tudo acaba bem quando acaba. bem.

tenho sempre receio das histórias de amor que ainda estão a acontecer, nos filmes acaba com o casamento ou as juras de ficarem juntos whatever what. não se vê os tipos discutirem por dinheiro, três anos depois, ou mesmo porque ambos trabalham e quem é que faz o jantar. é sempre algo que me aborrece nos filmes que acabam bem, não acabam, ficam em suspenso no climax do sentimento, não há putos a queimarem os neurónios nem empregos a absorverem o tempo de ambos. é tudo muito bonito isto de se estar apaixonado e deveria ficar assim, em suspenso, no momento alto do sentimento. alias, as histórias de amor mais bonitas que vivi foram as impossíveis, assumo. enquanto conduzia na autoestrada, pensei imensas vezes em nós os dois, a jantar e os teus olhos a brilharem, sentir-me a mulher mais bonita do mundo, a tua mão na minha cintura e o mundo aos nossos pés. o problema, o grande problema, é o depois. e nem sequer falo na monotonia que essa, com jeito, até se sobrevive. falo depois do sentimento acabar. no fundo é como as experiências que se fazem com coca cola, deixa-se poisar, ferve-se, umas merdas quaisquer e vê-se os resquícios e, por incrível que pareça, são os resquícios que importam. é aquele açúcar que faz mal. aqui, no relacionamento, é o afeto depois de tudo evaporado que interessa. o respeito, a preocupaçao, o carinho, o dar ao outro aquele cd porque "gosta mais do que eu" quando da separação dos bens.
só se conhece o outro quando despido de intenções e emoções para connosco, a história de amor só acaba quando o amor acaba. irónico.

ontem de manhã visitei um senhor e descobri que não era inglês mas irish. soube da pior forma possível, com ele vingando-se e tratando-me como espanhola. depois de satisfeito explicou me a rivalidade que existia entre english and irish e quase percebi metade do que me disse.

depois conheci dois putos ingleses, um bombeiro e um taxista, vieram cá ao calhas e agora não sabiam o que fazer. chegámos a conclusão de que se fossem gays seria mais fácil visto os programas serem todos tão românticos e ainda sugeri que fossem... não quiseram e decidimos que iriam tentar convidar duas miúdas que também estão no hotel. "para dividir as contas de taxi e assim"

ao fim da tarde passei da praia da rocha para boliqueime para conhecer um casal de sidney, uma ilha perto da Inglaterra que nem sabia existir. mostraram me a sua própria moeda, contaram me que a ilha era tao pequena que so podiam andar a 60/hora e que na mesma ilha viviam a família deles 15 irmãos com respectivos filhos.

no fim do dia queria tirar uma foto ao por do sol, já me tinha sentido uma vencedora quando um casal francês, que estava a fazer o mesmo, disse qualquer coisa, respondi e toparam que eu era belga, incrível, depois de tantos anos cá, toparam. conversa puxa conversa, arranjei lhes bilhetes para aquashow e eles arranjaram um programa para domingo, troca de telefones, cheguei tardíssimo a casa e com a certeza que esta deve ser a melhor fase da minha vida.


"isto nao é assim"

o turismo, nunca falo mal do lado de cá. "de cá". isso porque quando vim para "cá" ouvi muitas vezes o "volta para a tua terra" que me fez sentir mal e triste, tão triste que quando me acham portuguesa de gema fico aliviada e com o passar dos tempos aprendi a ficar calada e a "dar graças a deus" por viver em Portugal.
"isto não é assim" é a frase preferida dos proprietários, rececionistas ou diretores de hotéis aqui no Algarve. lamento mas é mesmo assim; "isto nao é assim" uma tentativa ridícula de mijar no poste onde um  taylor, françois ou detlef tentam (porque pagaram) aliviar necessidades fisiológicas. lembro-me de um proprietário que alugou a casa mas, mesmo assim, ia lá todos os dias. recebi queixas do hospede e quando chamei a atenção, respondeu-me que "isto não é assim, a casa é minha, vou lá regar as plantas quando bem entender" e não havia maneira de o fazer entender que não.  há qualquer coisa de ruim em nós que não permite  que sejamos verdadeiramente calorosos, hospitaleiros, altruístas. há sempre uma veia que nos manda dizer que a gente é que manda. era o que faltava.

quando trabalhava em recepçao eu sentia os meus colegas cansados porque "o cabrão quer vista mar, vejam-me isto" e, agora como relações publicas sinto mesmo que estamos saturados, logo em maio, dos turistas e nos esquecemos que são eles que nos trazem o ordenado, a nossa economia e viagens para o ano que vem.
porque os ingleses só querem compensações, porque os franceses são rudes ou os alemães picuinhas, ninguém se lembra que é por eles que estamos bem, estamos confortáveis e podemos, na boa, tirar 5 meses de férias no inverno, não, isso não chega porque no inverno chove de vez em quando. esquecem-se que a praia, o sol e as cervejas não se vendem sozinhas, sem um sorriso na cara e uma dedicação extra, eles não voltam, há mais por onde ir, não somos exclusivos por mais que achemos que sim. na recepçao como na agência de turismo, trata-se o hospede como se de um pedaço de carne se tratasse e se tiver 90 anos e estiver localizado longe de tudo? que se foda, e se pagou vista mar e está num básico vista garagem? que se foda. chega junho e já estão cansados de os aturar, como se fizessem um frete por alugar isto ou aquilo, uma maçada ter de trocar um serviço por dinheiro, somos arrogantes, é o que é. e imagino quando o pavor de ataques terroristas lá do outro lado do mundo acabar e os turistas decidirem voltar para lá porque people friendly e o catano, talvez nem sequer baixemos a crista e acharemos, na mesma, que isto nao é assim, têm de voltar, questa merda, isto nao é assim!