Não deixa de ter a sua piada: mais velho és, menos tempo tens e menos pressa sentes.
quando és miúda, as horas são longas mas mesmo assim não chegam para tudo o que queres fazer ou dizer. horas ao telefone a dizer merdas, milhares de sítios para onde ir e sonhar, a ânsia de viver é assustadoramente grande e não queres perder uma pitada, é aqui e agora.
Depois cresces e acalmas. responder a uma mensagem no segundo seguinte não é necessário, dizer que se tem saudades pode esperar ou então "nem é preciso dizer, já sabes" e demoras dias, semanas, meses a mudar o que está mal. empurras com a barriga o que te incomoda; o trabalho (porque o dinheiro faz falta), o relacionamento (nenhum é perfeito) ou a dieta (gosto tanto de comer). tens uma aplicação instalada que te lembre de beber agua mas perdes completamente a sede de viver.

Não sei a partir de que momento uma pessoa acha que tem o tempo todo, até que ponto acha que pode esperar até amanha, até prá semana, até lhe convir, porque a dada altura não convém, porque não pode, não deve, seja no outro, seja no trabalho, seja no que for, a urgência de começar o mais cedo possível algo de novo para ter mais tempo de a aproveitar é o sentimento mais precioso que existe, criar memórias o mais depressa possível, viver o que é bom as soon as it can.

Já continuo este texto.

se o criador de histórias de crianças cá andasse


Hoje andamos em casca de ovo em cada frase, é uma carga de trabalho explicar algo sem que haja alguém a saltar em cima porque ofendemos/esquecemos/não incluímos alguém.



a branca de neve que necessitou do apoio de 7 (sete!) homens, serem anões é discriminação. ter de limpar a casa é escravatura. engasgar-se com uma maçã ofende a industria da fruta porque subentende que existem mortes por engasgamento por maçã e num estudo feito em abril de 2013 só 1% dos engasgamentos foi por maçã. fruta é boa, ajuda a combater a obesidade mas não muito porque não queremos pessoas que se sintam oprimidas por modelos de beleza impossíveis de seguir.





Bela adormecida. questões laborais, a ASAE não verificou o estado da roca? como é possível o empregador não dar condições de trabalho digno aos seus trabalhadores? pior! quando adormeceu, acordou com beijo do homem sem permissão? enquanto estava a dormir? violação. no mínimo. assédio na certa.


Cinderela. a tipa em vez de ir ao baile só para mostrar a sua independência e dançar a noite toda, com o seu vestido bonito e sapatos de cristal (isso se nao vierem dizer que é tortura meter uma mulher num sapato tao doloroso e desconfortável para os standards de beleza atuais) (ainda por cima vestida por pássaros, a PAN passar-se-ia se soubesse) e quem raio pensa o príncipe que é para, qual stalker qual quê, andar a procura pelo reino inteiro por alguém a quem o sapato (que tarado) servisse.
101 dálmatas, era a PAN e amigos pedirem a abolição do filme porque crueldade animal. a associação de proteção a animais processaria o filme porque esparguete nao se dá aos cães, já os vegans resmungariam porque a massa nao era gluten free, a ONU acharia um escândalo esparguete quando tanta criança morre de fome.


Pinóquio já seria um sucesso, um pai que faz um filho que de outra maneira seria possível e, tcha-ran, o aceita mesmo que nao seja masculino ou feminino. sim, aceita-o mesmo que seja de... madeira e que lhe cresce o nariz cada vez que mente. isso se o nariz, com a sua forma longa e cilíndrica, não terá conotação sexual, aí sim, temos o caldo entornado (a não ser que o quintino aires ache bem, o que provavelmente acontecera)

isto é a liberdade de expressão, cala-te

não é surpresa para ninguém de que o mundo tem andado, como assim dizer, agressivo. não sei se tem a ver com a eleição do trump e a tentativa de ser mais ofensivo do que ele mas, a verdade é que, além de não saber meter virgulas em textos longos, tenho notado que cada vez que alguém dá a sua opinião e ela não ser a da maioria absoluta, lá vai o carmo e a trindade, o mané e o josé (nao vá a frase ofender os da lgtb ou lá o que é) e cai-lhe tudo em cima (meti um tracinho, não costumo meter) contra mim falo (sim, também nao meto maiúsculas no inicio das frases) é o mau que as redes sociais têm, a dada altura fazes parte de uma matilha, nem sequer sabes quem faz parte da tua matilha (pensam que sou toda gira e ocupada mas a verdade é que frito rissois com um rabo de cavalo e roupão no lombo, dois tamanhos acima)  tens as tuas ideias e, cada vez que um desgraçado vem com uma ideia arejada e fora da caixa, lá se grita "ahahaha, ganda mongo, vai te curar pah".

A liberdade de expressão (omg, meti letra maiúscula no inicio) tem sido cada vez mais fustigada. por exemplo (é só um exemplo) as capazes, omg as capazes que supostamente representam as feministas deste país, não aceitam criticas, berram que nem histéricas (sorry sergio lavos, nao é o histerismo que freud definiu) e a nossa liberdade de expressão, por ser fora de tudo o que pensam, acaba por ser motivo de chacota e, caso nao estejas bloqueada, respondido com elegantes "ahahaha" ou "vai ler, inculta" qualquer ideia nova ou pensamento divergente acaba por ser transportado, a pontapé de louboutin, pela sarjeta abaixo.


mais recentemente (agora nao meti maiúsculas) o panteão, coisa que até dava jeito para umas piadas, oh foda-se quem é que quer jantar num sitio frio onde estão enterradas celebridades importantes na cultura portuguesa? eu não. sinceramente não. já me incomoda a cabeça de javali quando vou jantar a sopa da pedra, imaginem saber que ao lado, nem que seja dois metros mais longe está o corpo de quem já tanto fez e agora apodrece (espero que já tenham almoçado ou jantado). era só uma indignação ou, como diria o meu antigo chefe "bater punhetas debaixo da mesa" mas não, lá vai o costa limpar a caspa dos ombros com um "não aceitei coisa nenhuma" lá vai a oposição a dizer "pah, puto, a caspa é tua, nao a sacudas pra cima dos outros" e o que era suposto ser a punheta debaixo da mesa acaba por ser noticia de inicio de telejornal consoante o canal

E o pior, oh meu deus, o pior é que as redes sociais deveriam ser o cigarro depois do almoço, a pausa merecida num dia cheia de merda mas, tan tan taaaaan, acabamos por sair da rede e notar que lá fora os pássaros cantam, as pessoas nem sabem o que aconteceu com o panteão e, sim, há desigualdade entre sexos mas se me ouvires, posso explicar te porquê, e tudo é mais soft.

e isso tudo, lá fora, com pessoas que não se queixam porque têm 280 caracteres em vez de 140. outra indignacao esta semana



Tive um chefe, chefe do meu chefe, diretor geral, presidente e deus todo poderoso da empresa, era enorme, de altura e largura, e inibia. no fundo era um doce, vinha sempre do Brasil com perfumes e nunca me assediou (sim, louis ck, eles existem) lembro-me que entrava dentro das reuniões com os engenheiros e diretores de obra e, a dada altura, ouvia-se gritar "pare de bater punheta debaixo da mesa e me responda". a empresa era brasileira e hoje ele deve estar preso (true story) depois saia de lá e dava-me o perfume que tinha comprado no aeroporto, uma maneira de agradecer as horas extraordinárias que fazia, não que não recebesse em dinheiro, eram os anos noventa e tínhamos dinheiro aos montes.Tive também, este ano e a meio da temporada que agora acabou e aguardo serenamente com outro emprego que volte (isso de descobrir o emprego perfeito e ele só ser de seis em seis meses é agridoce mas é o que ha) uma chefe, baixinha e magrinha, lembro-me de a ter conhecido há anos, com voz de quem está a morrer, sorriso ingénuo e sincero, achava-a mosca morta e seca, ironia das ironias, fui transferida para o departamento dela e pensei "oh god, lá vem a virgem ofendida" até o dia em que tive problemas com o departamento financeiro e ela resolveu por mim, com a voz quase a morrer disse "fica aqui eu volto já" e saiu. sei que voltou com ar crispado "podes ir" e eu fui e todo o departamento financeiro estava em sentido, branco e aberto a qualquer coisa que eu quisesse. foi aí que percebi que a minha chefe afinal tinha duas caras, tal e qual o meu diretor presidente todo poderoso. não me dava perfumes mas dava me comissões que davam para comprar a fábrica de perfumes.Ficaram, eles e outros que tais, minhas pessoas preferidas, hoje em dia é tão difícil ter pessoas preferidas, especialmente quando depois vão presas ou para cabo verde (true story) e é uma canja de galinha para a alma quando se conhece alguém com contrastes, não se contentando em ser somente uma coisa mas sim várias consoante a situação.




lembro-me de, no aeroporto, ter o poder de dar ou nao prioridade a certos casos no check in, lembro-me do olhar do meu colega e de ter feito merda. lembro-me que depois, veio ter comigo e disse "podia tê-lo dito mas achei melhor saberes por experiência" e nunca mais ter repetido a merda.

lembro-me da minha primeira apresentação; casa cheia, eu nervosa a suar, alguém vir no meio da apresentação para se queixar do serviço, o publico todo a ouvir e ela a continuar. lembro-me de ter pensado "isto não está a acontecer" enquanto mentalmente pegava na cabeça da senhora e batia com ela na parede.

Lembro-me do meu grupo de terceira idade, daquelas velhotas de 90 anos que fizeram birras porque não as deixei ir ao super safari. de sair de casa e fazer 60 quilómetros para me certificar que aguentaram o passeio que sugeri e apanha-las a beber porto e a dançar.

lembro-me do orgulho ao ter enchido um autocarro de franceses, até ali os filhos bastardos da empresa, de encher autocarros, encher sítios, conseguir fazer dos hospedes um único grupo, organizar tudo e manda-los a conhecer Portugal. 

lembro-me de cada prémio que ganhei, dos colegas com quem ia ao hotel onde nem sequer tínhamos reunião mas que visitávamos para depois lá almoçar. lembro-me tão bem de certos casais, das histórias de vida, da senhora que queria uma pausa de carregar os seu filho paraplégico, do marido que perdeu a mulher mas continua a vir cá com fotos dela, de tanta história que tive o beneficio de ouvir. 
Lembro-me de me dizerem que eu era boa e de não acreditar. lembro-me de começar a ver que afinal sim. agora sei que sim.


A semana passada, tive um casal de idosos, mesmo idosos. noventa e tal de idosos, no hotel. demoravam meia hora para darem dois passos, iam para o restaurante de maos dadas logo que aquilo abria e eu sempre torcia para que chegassem antes de fechar (chegavam). perguntavam me o horário dos autocarros e eu perguntava se eles queriam mesmo ir de transporte publico. assustava-me que aquelas maravilhosas pessoas andassem ali, no meio da jagunçada - os outros, os outros todos. a dada altura senti que os importunava. de tanto querer tomar conta deles, sentia que se afastavam cada vez mais e - surpresa - quase corriam para o outro lado quando me viam.

na hora de ir embora, fiz a pergunta que sempre faço; gostaram da estadia?

resposta deles; "aquela merda de hotel é um sitio muito morto, nao é? pouca animaçao, poucas festas".

fazedor de cestos e toda a dor dentro de nós

fui convidada para seguir uns hospedes numa excursão. não sei se foi para me compensarem porque trabalho 15 horas por dia ou se foi castigo por não trabalhar 18. acordei demasiado cedo, apanhei um transfer e fui (oh the joy) de jeep por terras pelos lados de vila real de santo António. falo Francês, inglês e alemão. meteram-me com holandeses, imaginem o silencio. o objetivo da excursão era conhecer o algarve interior, cheio de laranjas, figos e cestos de palha. falando em cestos de palha, paramos numa casinha e entramos numa garagem onde um senhor de idade, muito bem vestido, fazia uns cestos. os turistas, maravilhados, compraram uma data deles. nunca soube porque se diz "data deles" para explicar q foram muitos mas cada vez menos entendo destas coisas, compraram os cestos, os potes de mel com alecrim e foram para o jeep que fez manobras perigosas que exaltaram os pobres corações dos senhores que pagaram para isso.

vamos voltar ao senhor dos cestos, uns oitenta anos, impecavelmente vestido, cão assustado ao lado, a fazer cestos. linda imagem, até a tenho aqui no telemóvel, eu e os outros que adoraram a figura de quem se agarra a tradições.

um dos condutores do jeep, impecável, tornou a viagem de todos numa verdadeira festa, confessou-me que o senhor é viúvo há uns dois anos. o filho emigrou e o outro só quer vender a casita para poder, sei lá, gastar tudo em putas e vinho verde. o senhor vive sozinho e o cão (a parte mais importante para mim) tem pavor dos turistas porque os putos, por vezes, são agressivos. eu não sei se é verdade mas pelo sim, pelo não, fiz imensas festas. um dia disseram me para fazer festas a todos os caes que encontrasse porque nunca saberia mas poderia ser a melhor parte do dia. não te disperses, rapariga, a ultima vez que isso aconteceu, dispersares te, foi no meio da apresentação e deste tempo de alguém se levantar e gritar que isto era uma grande merda. nao te disperses.

então o senhor dos cestos, já com problemas de coração, é avisado pelos condutores dos jeeps que, daqui xixs tempo passarão por aí, o tempo do senhor se levantar, tomar banho, vestir o melhor fato e fazer a porra dos cestos. uma vez que nos vamos embora, acho que o senhor dá um pontapé no cão, volta a meter o pijama, enfia se na cama e volta à sua depressão.

fui para o almoço (onde os próprios condutores dos jeeps nos serviram vinho e frango à descrição) pensando no fazedor de cestos que, provavelmente, a esta hora, deveria esperar a morte e a mandar calar o cão que tinha saudades da dona.

cada vez mais fiquei a pensar que a realidade não é a que se apresenta aos olhos que vem conhecer, pela primeira vez, a paisagem. o instagram da vida real é quase tão triste como a virtual mas paga se para ver o bonito, a cultura e o típico. paga-se um cesto feito à pressa, tira-se uma foto de um velhotes a fazer o cesto e baza-se para o vinho à descrição. by the way, bela merda de vinho, fiquei com dor de cabeça. o fazedor de cestos com dor de coração. cada um a sua dor, não para turista ver, claro.